A expansão da inteligência artificial não depende apenas da criação de novos sistemas ou da ampliação da infraestrutura de internet. Para que a tecnologia seja utilizada de forma segura e inclusiva, também são necessários conhecimento, formação profissional, acesso à informação e capacidade de compreender como essas ferramentas funcionam. Essa é uma das ideias centrais da declaração apresentada pelos ministros de Comunicações dos países do BRICS.
O documento foi apresentado em 27 de outubro de 2026, durante a 12ª Reunião dos Ministros de Comunicações do BRICS, realizada em Pune, na Índia. Segundo o Ministério das Comunicações, os países avançaram em tratativas sobre cooperação em tecnologias digitais, inteligência artificial, conectividade e segurança cibernética.
A proposta apresentada pelos representantes do grupo é construir ecossistemas digitais acessíveis, inclusivos, seguros, interoperáveis e sustentáveis. Em termos práticos, isso significa combinar redes de comunicação mais amplas com políticas capazes de preparar cidadãos, trabalhadores e agentes públicos para lidar com serviços e ferramentas digitais.
Por que a alfabetização digital ganhou espaço
A alfabetização digital vai além de saber operar um celular, abrir um aplicativo ou acessar uma página na internet. Ela envolve a capacidade de interpretar informações, avaliar a confiabilidade de uma resposta automatizada, proteger dados pessoais e reconhecer os limites de uma tecnologia. Com a popularização da inteligência artificial, essas habilidades passam a fazer parte de situações comuns de estudo, trabalho, atendimento e comunicação.
Uma pessoa que utiliza uma ferramenta de IA para produzir um texto, resumir um documento ou buscar uma explicação precisa compreender que o resultado não deve ser aceito automaticamente. A resposta pode exigir conferência, adaptação ao contexto e análise da linguagem utilizada. Essa leitura crítica é importante para reduzir o risco de desinformação e de decisões baseadas em conteúdo incorreto ou incompleto.
O documento dos ministros também destaca a formação em ciência de dados e a capacitação profissional. A medida indica que a transformação digital não deve ser tratada apenas como uma questão técnica. Ela exige profissionais preparados para desenvolver, avaliar e utilizar sistemas digitais, além de servidores públicos capazes de aplicar essas soluções com responsabilidade no atendimento à população.
O que significa governança da inteligência artificial
Governança da inteligência artificial é o conjunto de princípios, regras e procedimentos usados para orientar o desenvolvimento e o uso desses sistemas. O conceito inclui temas como transparência, proteção de dados, segurança, confiabilidade e supervisão humana. O objetivo é criar condições para que a inovação avance sem retirar das pessoas a possibilidade de compreender, questionar e revisar decisões apoiadas por máquinas.
Essa discussão tem relação direta com a comunicação. Sistemas automatizados podem gerar textos, imagens, respostas e orientações em grande escala. Por isso, é necessário que as mensagens sejam compreensíveis, que os usuários saibam quando estão interagindo com uma ferramenta de IA e que existam formas de buscar esclarecimentos ou contestar resultados quando houver erro.
A linguagem clara também facilita o acesso aos serviços digitais. Termos técnicos, instruções ambíguas e interfaces difíceis de entender podem afastar pessoas que já enfrentam barreiras de conectividade ou de formação. Uma política de inclusão digital, portanto, precisa considerar não apenas a existência da rede, mas a capacidade de cada usuário participar dela com autonomia e segurança.
Conectividade precisa alcançar áreas remotas
A declaração também menciona a ampliação do acesso em áreas rurais e remotas e o fortalecimento das redes de telecomunicações. A preocupação é especialmente relevante para países em desenvolvimento, onde diferenças de infraestrutura e de conhecimento podem limitar a distribuição dos benefícios associados à digitalização.
Sem conexão adequada, comunidades inteiras podem ter dificuldade para acessar educação, serviços públicos, oportunidades de trabalho e canais de comunicação. Mesmo quando a internet está disponível, a falta de equipamentos, treinamento ou suporte pode impedir que a população aproveite plenamente as ferramentas oferecidas.
Por isso, a cooperação defendida pelos ministros reúne diferentes frentes: infraestrutura, segurança cibernética, qualificação e uso responsável da inteligência artificial. A combinação desses elementos pode ajudar os países do BRICS a reduzir desigualdades e a preparar seus cidadãos para um ambiente em que a comunicação digital terá participação cada vez maior.
O debate apresentado em Pune mostra que a inteligência artificial não deve ser discutida somente pelo desempenho dos sistemas. A forma como as pessoas entendem, questionam e utilizam essas tecnologias também é parte central do processo. Para o cidadão, a alfabetização digital representa uma ferramenta de participação; para governos e instituições, é uma condição para oferecer serviços mais acessíveis, seguros e transparentes.
