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Tecnologia

Deepfake nas eleições: como a inteligência artificial está mudando a forma de falar e informar no Brasil

Irina Solvenka
Irina Solvenka setembro 9, 2026 12 Min de leitura
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Regras para conteúdos gerados por IA mostram por que reconhecer manipulações digitais virou uma habilidade essencial de comunicação.

Contents
Por que o deepfake virou um problema de comunicaçãoComo as plataformas estão tentando mudar a comunicação com IAComo falar bem em um ambiente dominado pela inteligência artificial

A inteligência artificial está mudando não apenas a tecnologia, mas também a maneira como brasileiros recebem, interpretam e compartilham informações. Nos últimos dias, o debate ganhou força com as medidas apresentadas por plataformas digitais ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as Eleições 2026 e com a definição de critérios para identificar conteúdos classificados como deepfake. O tema interessa mesmo a quem não acompanha política: vídeos, áudios e imagens produzidos ou alterados por IA podem aparecer em redes sociais com aparência cada vez mais convincente. (Justiça Eleitoral)

Para quem quer se comunicar melhor, a mudança traz uma lição importante. Falar bem na era da IA não significa apenas escolher palavras adequadas, escrever corretamente ou fazer uma boa apresentação, mas também saber verificar aquilo que chega pela tela antes de transformar uma informação em opinião ou repasse. O desafio passa a ser distinguir comunicação eficiente de conteúdo criado para provocar uma reação rápida. É justamente nesse ponto que tecnologia, linguagem e responsabilidade começam a se encontrar.

Por que o deepfake virou um problema de comunicação

Deepfake é um conteúdo sintético produzido ou manipulado com inteligência artificial ou tecnologia semelhante para criar, reproduzir ou modificar imagem, voz ou manifestação de uma pessoa. O TSE estabeleceu recentemente critérios para caracterizar esse tipo de material nas Eleições 2026, levando em consideração não apenas a tecnologia utilizada, mas também elementos como conteúdo, linguagem, público e circunstâncias em que a comunicação foi produzida e divulgada. A decisão é importante porque mostra que o problema não está simplesmente em uma imagem ter sido criada por computador, e sim na forma como ela pode ser utilizada para transmitir uma mensagem enganosa. (Justiça Eleitoral)

Isso ajuda a entender por que o deepfake não deve ser tratado apenas como uma questão técnica. Uma montagem visual pode interferir na percepção de quem assiste, principalmente quando aparece acompanhada de uma legenda curta, de uma frase aparentemente atribuída a alguém ou de uma chamada que estimula medo e indignação. Quanto mais rápido o conteúdo circula, menor pode ser o tempo disponível para verificar sua origem. Por isso, a comunicação digital exige uma habilidade que se tornou cada vez mais valiosa: saber interromper o impulso de compartilhar e perguntar primeiro de onde aquela informação veio. Em outras palavras, comunicar bem também significa não ajudar uma mensagem duvidosa a ganhar alcance.

A preocupação ganhou força justamente porque conteúdos falsos podem aproveitar a confiança que as pessoas depositam em rostos, vozes e veículos conhecidos. Um caso recente analisado pelo Projeto Comprova mostrou um vídeo que utilizava técnicas de deepfake para simular a imagem e a voz da apresentadora Renata Vasconcellos, atribuindo a ela declarações que não haviam sido feitas. O conteúdo alcançou centenas de milhares de visualizações antes de ser desmentido, demonstrando como elementos visuais convincentes podem ser combinados com informações reais distorcidas para criar uma narrativa falsa. (UOL Notícias)

A principal mudança de comportamento, portanto, é simples de explicar, embora nem sempre seja fácil de aplicar: aparência de verdade deixou de ser suficiente. Uma voz familiar, uma imagem de televisão ou um vídeo aparentemente espontâneo não devem ser considerados prova isolada de autenticidade. Para falar bem sobre um assunto, o leitor precisa desenvolver o hábito de comparar a informação com fontes confiáveis e observar se outros veículos ou instituições também registraram o acontecimento. Essa postura não significa desconfiar de tudo, mas aprender a diferenciar informação verificável de conteúdo criado para parecer verdadeiro.

Como as plataformas estão tentando mudar a comunicação com IA

As próprias plataformas digitais estão adotando medidas para enfrentar o problema durante as eleições. A Meta apresentou ao TSE um plano de conformidade para 2026 que inclui ações contra desinformação, conteúdos violentos, anúncios políticos e materiais produzidos ou modificados por inteligência artificial. Entre as medidas apresentadas estão mecanismos relacionados à moderação e à identificação de conteúdos gerados por IA, em uma tentativa de reduzir os riscos de manipulação durante um período em que a circulação de informação tende a ser especialmente intensa. (Justiça Eleitoral)

A OpenAI também apresentou ao TSE seu plano para as eleições brasileiras. Segundo o documento divulgado pelo tribunal, a empresa prevê barreiras para recomendações de voto, recusas automáticas em determinadas situações, revisão humana e monitoramento de sinais de abuso relacionados ao processo eleitoral. O movimento mostra que os sistemas de inteligência artificial estão deixando de ser vistos apenas como ferramentas para escrever textos ou responder perguntas e passaram a ocupar um espaço importante na própria infraestrutura da comunicação. (Justiça Eleitoral)

Essa transformação produz uma consequência interessante para o cotidiano. Quando uma pessoa pergunta algo a uma IA, recebe uma resposta e depois publica essa informação em uma rede social, existe uma cadeia de comunicação que envolve tecnologia, interpretação humana e audiência. Se a primeira informação estiver errada, a IA pode contribuir para acelerar sua circulação; se houver verificação e contexto, a mesma tecnologia pode ajudar a organizar informações e tornar assuntos complexos mais compreensíveis. O problema, portanto, não está somente na existência da ferramenta, mas na maneira como ela é incorporada ao processo de comunicação.

O mesmo raciocínio aparece fora da política. Empresas brasileiras já utilizam IA em atividades profissionais, inclusive no desenvolvimento de softwares e no atendimento ao consumidor, enquanto estudos recentes mostram uma expansão do uso da tecnologia nos negócios. A B3, por exemplo, informou que oficializou uma ferramenta de IA para suas equipes de engenharia após testes que reduziram em aproximadamente 35% o tempo de entrega de aplicações. O caso mostra outro lado da transformação: quando bem utilizada, a tecnologia pode liberar tempo para atividades que dependem de análise, criatividade e comunicação humana. (B3)

Para quem trabalha, estuda ou produz conteúdo, essa diferença é fundamental. Uma ferramenta de IA pode ajudar a organizar ideias, revisar um texto ou explicar um assunto, mas não substitui automaticamente a responsabilidade de conferir dados, compreender o contexto e decidir como uma mensagem deve chegar ao público. A tecnologia pode acelerar a produção, mas clareza continua sendo uma tarefa humana. Quanto mais conteúdo automatizado aparece nas telas, mais valor ganha aquilo que apresenta contexto, transparência e capacidade de explicar sem manipular.

Como falar bem em um ambiente dominado pela inteligência artificial

A primeira regra é não confundir velocidade com qualidade. Uma mensagem que chega antes de todas as outras não é necessariamente a mais correta, e uma publicação com milhares de compartilhamentos não se torna verdadeira por causa da popularidade. Antes de reproduzir um vídeo, áudio ou imagem que provoque surpresa, vale procurar a origem do conteúdo, verificar a data, identificar quem publicou primeiro e comparar a informação com fontes institucionais ou veículos jornalísticos reconhecidos. Esse pequeno intervalo entre receber e compartilhar pode fazer uma grande diferença na qualidade da comunicação.

Outra atitude importante é observar a linguagem utilizada. Conteúdos manipuladores frequentemente apelam para frases absolutas, urgência exagerada, indignação imediata ou pedidos para que a mensagem seja compartilhada antes que seja retirada do ar. Esses elementos não provam, sozinhos, que um conteúdo é falso, mas são sinais de que vale redobrar a atenção. Comunicação assertiva não significa falar com certeza sobre tudo; significa reconhecer quando ainda faltam informações para afirmar alguma coisa.

O leitor também pode adotar uma espécie de regra de três perguntas: quem disse, de onde veio e o que confirma isso? A primeira pergunta ajuda a identificar a origem da informação; a segunda mostra se existe uma fonte verificável; e a terceira impede que uma única publicação seja tratada como evidência suficiente. Quando o assunto for especialmente relevante, como eleições, saúde, segurança ou decisões governamentais, a preferência deve ser por documentos oficiais e fontes jornalísticas confiáveis. No caso das regras eleitorais sobre IA e deepfakes, por exemplo, o próprio TSE disponibiliza as decisões e explicações sobre o tema. (Justiça Eleitoral)

Essa postura também melhora a comunicação nas conversas do dia a dia. Em vez de afirmar “isso aconteceu” imediatamente, uma pessoa pode dizer “vi essa informação, mas ainda vou confirmar”, demonstrando responsabilidade sem interromper o diálogo. Parece uma mudança pequena, mas representa uma forma mais madura de usar redes sociais, aplicativos de mensagens e ferramentas de IA. Em um ambiente no qual máquinas conseguem produzir textos, imagens e vozes cada vez mais convincentes, admitir dúvida quando necessário passa a ser uma demonstração de confiança, e não de fraqueza.

A tecnologia, portanto, não elimina a importância do bem falar. Ela torna essa habilidade ainda mais necessária. Quanto maior a quantidade de mensagens produzidas automaticamente, maior é o valor de quem consegue explicar um assunto com clareza, separar fato de interpretação e indicar quando uma informação ainda precisa ser confirmada. O futuro da comunicação não depende apenas de máquinas capazes de produzir conteúdo, mas de pessoas capazes de decidir o que merece ser dito, compartilhado e levado a sério.

No Brasil, o avanço das regras e das ferramentas para lidar com IA durante as Eleições 2026 deixa uma mensagem que vai além da política. A comunicação digital entrou em uma fase em que imagem, voz e texto podem ser produzidos ou alterados com enorme facilidade, tornando a verificação parte do próprio ato de se comunicar. (Justiça Eleitoral)

Para o leitor, a melhor resposta não é abandonar a tecnologia, mas aprender a usá-la com mais consciência. Perguntar, conferir, contextualizar e escolher palavras com cuidado são atitudes simples que ajudam a reduzir a circulação de informações enganosas. Afinal, em tempos de inteligência artificial, falar bem também significa saber quando é hora de falar — e quando é melhor verificar primeiro.

Fontes utilizadas:

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Eleições 2026 e desinformação (Justiça Eleitoral)
  • TSE — informações sobre inteligência artificial e Eleições 2026 (Justiça Eleitoral)
  • Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral (Biblioteca Digital TSE)
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