Marcello José Abbud, com sua experiência como empresário e especialista em soluções ambientais, explica que a natureza não tem sistema de coleta. Quando um resíduo é descartado de forma incorreta, ele não desaparece: ele migra, se fragmenta, contamina e altera ecossistemas que levaram décadas ou séculos para se equilibrar. O impacto sobre a biodiversidade local é um dos efeitos menos visíveis da má gestão de resíduos sólidos, mas está entre os mais duradouros.
O Brasil abriga cerca de 20% da biodiversidade do planeta, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Essa riqueza convive, paradoxalmente, com um sistema de gestão de resíduos ainda repleto de lacunas: resíduos dispostos em áreas de preservação, esgotos sem tratamento despejados em corpos hídricos e plásticos que percorrem bacias hidrográficas inteiras antes de chegar ao oceano. Cada um desses fluxos representa uma ameaça concreta a espécies, habitats e serviços ecossistêmicos dos quais a própria sociedade depende.
Compreender os mecanismos por trás desse impacto é fundamental para quem toma decisões sobre gestão ambiental e saneamento. Nesse sentido, continue lendo para entender como a destinação inadequada de resíduos compromete a biodiversidade e o que pode ser feito para reverter esse quadro.
Como os resíduos chegam aos ecossistemas naturais?
Os caminhos pelos quais os resíduos alcançam áreas naturais são variados e, muitas vezes, subestimados. Como observa Marcello José Abbud, o descarte irregular em margens de rios, beiras de estrada e terrenos baldios é apenas o ponto de entrada. A partir daí, as chuvas carregam esses materiais para cursos d’água, que os distribuem pela paisagem com uma eficiência que nenhum sistema de transporte humano conseguiria replicar.
Resíduos orgânicos em excesso alteram a concentração de nutrientes nos corpos hídricos, favorecendo a proliferação de algas e comprometendo os níveis de oxigênio dissolvido. Esse processo, chamado de eutrofização, pode eliminar populações inteiras de peixes e organismos aquáticos em poucos meses. Materiais como plásticos, metais e vidros, por sua vez, fragmentam-se em partículas cada vez menores que são ingeridas por animais, entram na cadeia alimentar e acumulam compostos tóxicos ao longo dos níveis tróficos.

Quais espécies e habitats são mais vulneráveis ao descarte inadequado?
A fauna silvestre é afetada de formas diretas e indiretas, e conforme apresenta Marcello José Abbud, animais que habitam áreas periurbanas e de borda de mata são especialmente vulneráveis, pois têm contato frequente com resíduos descartados ilegalmente. Casos de ingestão de plástico por aves, mamíferos e répteis são registrados em praticamente todos os biomas brasileiros, com consequências que vão desde obstrução digestiva até morte por intoxicação.
Habitats aquáticos e zonas úmidas estão entre os ecossistemas mais impactados. O descarte de resíduos sólidos em nascentes, veredas e áreas de várzea compromete não apenas as espécies que dependem diretamente desses ambientes, mas também os serviços prestados por eles: regulação hídrica, filtragem natural de água, controle de cheias e manutenção da umidade do solo em áreas agrícolas próximas.
O que a gestão adequada de resíduos representa para a conservação?
A relação entre saneamento e conservação da biodiversidade é direta e mensurável. Como evidencia o empresário e especialista em soluções ambientais, Marcello José Abbud, municípios que avançam na coleta seletiva, no tratamento de resíduos orgânicos e na eliminação de pontos de descarte irregular observam recuperação progressiva da qualidade hídrica local e retorno de espécies que haviam abandonado determinadas áreas.
Aterros sanitários adequadamente operados, sistemas de compostagem e unidades de triagem não são apenas infraestrutura de saneamento: são instrumentos de proteção ambiental com impacto direto sobre os ecossistemas que circundam os municípios. Tratar resíduos corretamente é, em termos práticos, uma política de biodiversidade.
A conta que a natureza apresenta quando ignorada
Os serviços ecossistêmicos prestados pela biodiversidade, como polinização, regulação climática, purificação da água e controle de pragas, têm valor econômico estimado em trilhões de dólares globalmente. Quando os resíduos comprometem esses serviços, o custo não desaparece: ele é transferido para o poder público, para os produtores rurais e para as comunidades que dependem de recursos naturais para sobreviver.
Disso em diante, como resume Marcello José Abbud, a gestão inadequada de resíduos nunca é gratuita. O que parece uma economia de curto prazo para o município transforma-se em passivo ambiental e social de longo prazo, pago por gerações que não participaram da decisão de descartar incorretamente.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
